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(Meu fio, tá o bicho,viu!?)

A diferença entre fatos e polêmicas sobre governo Temer

Blog comenta casos 'Geddel e Lula', 'Moraes e PGR', 'mulher e ministério', 'Cultura e Estado'

1.
A obrigação da imprensa de vigiar o poder de turno, o desejo dos jornalistas de conquistar a audiência do público, a ânsia de empurrar uma agenda ideológica e/ou a dificuldade de se compreender o que se lê implicam, com frequência, a pressa em esticar a corda dos fatos para levantar falsas polêmicas ou tornar as existentes maiores do que são.

a) Uma declaração de Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) sobre uma suposta “contribuição” de Lula gerou uma série de críticas na internet muito menos pelo seu conteúdo real do que pela “turbinada” que lhe foi dada pelo Estadão e reforçada por colunistas do jornal e de outros sites.
Presidente   Michel  Temer  com  a  Bancada  da  Bahia. Local.   Presidencia  do  P M D B. Data.   13-04-2010 Foto.    Luiz   Cruvinel.
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Este é o trecho “polêmico” da entrevista com o novo ministro da Secretaria de Governo:
Geddel Estadao
Geddel disse, somente quando questionado pelo jornal, que Lula “haverá de dar sua contribuição para o distensionamento”, ou seja: para tirar ou anular a tensão existente.
Não pediu em momento algum a contribuição de Lula, nem disse que qualquer contribuição do petista seria dada ao governo, muito menos que vai procurá-lo.
Limitou-se, no tom conciliador que já marca a gestão de Michel Temer, a demonstrar que, da parte de Geddel, não há dificuldades para o diálogo (dando a entender que quem alimenta tensões no país neste momento “de emoção” são os próprios petistas).
Foi o bastante para que o Estadão publicasse a entrevista com uma manchete que não apenas suprime o contexto da 12ª(!) pergunta, mas edita a frase original da resposta:
“Tenho certeza de que Lula vai contribuir”.
Além do sumiço do “distensionamento” no título (e, nas redes sociais, muita gente só lê títulos), o jornal destacou na introdução da matéria a frase original em sua versão completa, mas precedida de um contexto que é pura invenção:
Geddel “considera que, apesar de um possível ressentimento e acusações de golpe, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá ser procurado paraajudar na busca por alternativas para sair da atual crise política e econômica. ‘Não tenho nenhuma dificuldades de diálogo com o ex-presidente Lula e tenho certeza de que, passado esse momento de emoção, o Lula, na condição de ex-presidente, haverá de dar sua contribuição para o distensionamento’, afirmou o ministro ao Estado.”
Foi o bastante para que Geddel fosse acusado de abrir as portas do governo Temer para Lula… em plena época de Lava Jato… o que cheira a pizza com mortadela etc.
No Twitter, o ministro teve de recomendar aos internautas que lessem a entrevista na íntegra antes de atacá-lo. Geddel também retuitou mensagens que diziam que ele não pediu contribuição do Lula, nem vai procurar o petista, mas que o jornal deu uma “esquentada” à entrevista.
“Quero direito de resposta”, chegou a escrever Geddel diante de tantas cobranças.
Este blog compreende a preocupação geral, reconhece que a frase de Geddel deu alguma margem à confusão (e à distorção) e abomina a hipótese de qualquer contribuição de Lula ao governo Temer. Não abomina, no entanto, que o governo de “salvação nacional” pose de conciliador para o grande público (em contraponto à gestão do PT) nem que receba emissários de Lula para conversar…
…desde que rejeite, claro, todas as suas exigências e jamais lhe a importância que não tem.
b) Uma declaração de Alexandre de Moraes sobre o método de escolha do sucessor de Rodrigo Janot na Procuradoria-Geral da República também gerou certa confusão menos pelo seu conteúdo real do que pela “turbinada” que lhe foi dada pela Folha de S. Paulo e reforçada por outros jornalistas.
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Este é o trecho “polêmico” (7ª, 8ª e 9ª perguntas) da entrevista com o novo ministro da Justiça:
Ministro justica PGR
Alexandre de Moraes deixou claro, quando questionado pelo jornal, que nunca conversou com Temer sobre o tema, de modo que, em sua obrigação de ministro da Justiça, ele obviamente se limitou a defender a Constituição e a explicar o que ela diz, apontando que o presidente tem a OPÇÃO de escolher quem ele quiser para a PGR, desde que o indicado preencha os requisitos legais necessários.
Se o presidente irá escolher o primeiro, o segundo ou o terceiro da lista tríplice (que nem sequer saiu ainda), ou qualquer outro integrante da carreira, caberia a ele decidir.
matéria de Mônica Bergamo, no entanto, naturalmente destaca logo na introdução o contraste da declaração de Moraes baseada na lei com a decisão “elogiada” dos governos do PT:
“O novo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, 47, defende que o governo de Michel Temer não nomeie obrigatoriamente, para a chefia da Procuradoria-Geral da República, o mais votado em uma lista tríplice por integrantes da carreira.
A Constituição não prevê a eleição interna na Procuradoria, mas a prática foi adotada nos governos do PT, que indicaram para procurador-geral sempre o primeiro da lista. A conduta era elogiada por membros do Ministério Público por em tese garantir maior autonomia ao órgão.”
A matéria naturalmente omite que os governos do PT só escolheram o primeiro da lista tríplice para a PGR, não para o Superior Tribunal de Justiça, para o qual foi indicado o segundo da lista da categoria (adivinhe quem?), Marcelo Navarro Ribeiro Dantas.
Navarro foi nomeado por Dilma para o STJ para libertar prisioneiros da Operação Lava Jato como Marcelo Odebrecht, segundo a delação premiada de Delcídio do Amaral. Com base nela, Rodrigo Janot pediu abertura de inquérito para investigar Dilma, José Eduardo Cardozo e Lula por obstrução de Justiça.
Nenhuma dessas decisões foi “elogiada”.
Após a repercussão da entrevista da Folha com Moraes, Temer achou melhor evitar polêmicas e anunciar o seu método de escolha para a PGR:
“Quem escolhe o procurador-geral é o presidente. E manterei a tradição de escolher o mais votado da lista tríplice”.
Foi o bastante para que jornalistas anunciassem que Temer “desautorizou” o ministro da Justiça, o que está longe da verdade.
Temer simplesmente definiu o que lhe cabia, após Moraes apresentar as opções legais que o presidente tem.
Com a repercussão da nota, o ministro disse o óbvio à repórter Andréia Sadi: “em momento algum” afirmou que ia sugerir mudanças a Temer sobre a PGR.
Em tempos de novo governo, a imprensa noticiosa é que anda sugerindo demais.
2.
Por falar em falsas polêmicas, eis algumas tuitadas recentes sobre elas:
– Até o panelaço os petistas tentam roubar. Mas só conseguem um panelinho.
– Na hierarquia de militantes, fatos comprovados contra membros de seu partido são tão ou menos graves que hipóteses contra os de outros.
– Sexista é a tese de que só mulher pode representar mulheres, assim como seria a de que só homem representa homens. Mas petismo é inversão.
– Temer tenta contornar esperneios da esquerda contra falta de mulher no governo e extinção do MinC criando secretaria de Cultura subjugada ao MEC e chefiada por mulher.

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