“O governo soviético virou um hospício gigantesco.”
(Walter Krivitsky, sobre o Grande Expurgo)
As informações desta matéria foram extraídas do livro “No Serviço Secreto de Stálin: Memórias do Primeiro Grande Espião Militar Soviético a Desertar para o Ocidente”, do Walter Krivitsky[1]. Quaisquer semelhanças com eventos e personagens atuais são apenas mera coincidência com o cotidiano comunista do final da década de 30.
Na noite de 30 de junho de 1934, Hitler matou vários de seus principais concorrentes e opositores na chamada “Noite das Facas Longas”. O expurgo-relâmpago do Führer rapidamente chegou aos ouvidos de Stálin, que ficou maravilhado com a destreza do ditador alemão e viu naquela tática uma oportunidade de consolidar ainda mais o seu poder político. Inspirado pelo nazismo furioso, Stálin começa os preparativos de seu próprio expurgo, que, como a história nos revela, foi muito mais abrangente e duradouro do que o próprio expurgo nazista.
Stálin já estava assentado na liderança de uma nação governada por um partido único. Lênin fez um bom trabalho em eliminar as forças antirrevolucionárias da oposição.Mas este trabalho deixou o partido com heróis de renome que poderiam se tornar fortes concorrentes internos contra qualquer líder que não estivesse fazendo o seu trabalho direito. Stálin aprendeu com Hitler como dar um jeito nestes grandes homens inconvenientes mas ele daria um toque pessoal nesta receita sinistra.
Stálin até tentou matar diretamente alguns de seus potenciais rivais. O livro descreve estas tentativas com mais detalhes. Mas este método estava causando problemas dentro do partido e, para evitar a formação de uma guerra civil, algum ar de legitimidade tinha que entrar nos ingredientes do seu expurgo. A URSS era muito maior do que a Alemanha e a limpeza teria que ser feita por partes. Então entraram em cena as chamadas “farsas judiciais”.
As farsas judiciais são tribunais encenados para o público aceitar a sentença injusta de seus réus.No caso soviético, ele envolvia um sistema de torturas, de confissões falsas, de provas plantadas, de suspeitas absurdas e até mesmo de condenações autocontraditórias. Além disto, as prisões de suspeitos eram feitas por acusações sem nenhum embasamento legal, como, por exemplo, ser vizinho de alguém que foi condenado por um crime político. Bastava a acusação e a condenação era improvisada sem demora.
Estar em destaque era perigoso – se o político se sentisse ameaçado por teu prestígio, você teria que ter o mesmo destino de Abel.Nem os próprios chefes que executaram o expurgo foram poupados,pelo crime de sua eficiência. A coerência de Lênin de recompensar os seus companheiros de batalha foi dissolvida com Stálin e os bárbaros tribunais de acusação se tornaram a lei.
Apenas Stálin poderia salvar a Revolução e os seus inimigos da velha guarda deveriam cair para que uma nova geração pudesse continuar promovendo o progresso. Como diria Krivitsky:
“Durante longos anos de luta, aprendemos a repetir para nós mesmos que uma vitória sobre as injustiças da velha sociedade só pode ser alcançada com sacrifícios morais e físicos, que um novo mundo só pode vir a existir quando o último vestígio dos hábitos de vida do velho estivesse destruído. Mas era necessário que uma revolução bolchevique destruísse todos os bolcheviques?”.
Krivitsky diz que o partido era repleto de leis não-escritas e que violar estes costumes era um crime político punível com sentenças reais e muito bem escritas.Elas eram os fins e quaisquer meios eram possíveis para alcançar estes fins.A lei não escrita do Grande Expurgo rezava que você deveria ser obediente e irrelevante para não ameaçar o poder de Stálin.Esta lei não escrita chegou a ultrapassar até mesmo a circunscrição soviética e atingiu pessoas em todo o mundo.
O livro fala em julgamentos do Grande Expurgo na Guerra Civil Espanhola, sequestros e assassinatos de agentes comunistas em toda a Europa, e descreve uma tentativa frustrada na Tchecoslováquia de levar um refugiado trotskista, Anton Grylewicz, para a justiça comum com provas falsas. Stálin tinha pessoal da polícia tcheca em seu bolso e este homem chegou a ser preso. “A OGPU [polícia secreta, antiga KGB] fracassou nesta tentativa, cuja iniciativa eu encontrara em Moscou, de provar que os trotskistas tchecos estavam trabalhando com Hitler contra o governo de Praga. Se o empreendimento fosse bem sucedido, eles ainda teriam que trabalhar muito para convencer os céticos europeus que o valor das ‘evidências’ dos julgamentos de Moscou era legítimo”. No fim das contas, era o próprio governo soviético que estava trabalhando com os nazistas mas, como eu já disse, não importa qual seja a justificativa, o resultado final tem que estar alinhado com a lei não escrita do partido.
O Grande Expurgo de Stálin foi tão abrangente que faltou carrascos para executar todas as sentenças. Os próprios membros dos tribunais faziam as execuções, incluindo os promotores e o pessoal da limpeza.Vários julgamentos secretos eram feitos do dia para a noite e, quando o povo acordava, as execuções já estavam consumadas.Até mesmo crianças e adolescentes desgarrados, órfãos dos condenados, entraram na estatística dos executados, enquanto Stálin cinicamente posava sorrindo para fotos com flores e crianças ao seu redor.
Stálin apresentado em um cartaz como o verdadeiro pai da nação soviética.
No fim das contas, Stálin conseguiu o que queria e governou sem empecilhos até a sua morte em 1953. Mas sua vitória custou muito caro para o seu país e para o comunismo. Um dos preços que foi pago por sua vitória política foi a perda deKrivitsky, um agente talentoso e um homem com muita cultura, que teceuum dos melhoreslivrosantistalinistas da história, dificultando o trabalho dos tiranos modernos em sua escalada para o poder absoluto.
FONTES
[1] Este é o primeiro livro traduzido que eu publiquei. Ele está disponível em formato digital na Amazon e uma edição em formato físico está sendo preparada pelos Estudos Nacionais.
Renato Rabelo, 28, é pesquisador
independente de inteligência militar, tradutor e aluno do Curso Online
de Filosofia de Olavo de Carvalho.
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