Sabedoria Universitária: Menos Bárbaras, mais Jéssicas:

Acabo de assistir pela terceira vez o brilhante filme de Anna Muylaert, ‘Que horas ela volta?’. Não sei como me segurei tanto para escrever sobre ele, já que pela terceira vez me leva às lágrimas. Talvez porque assisti com minha mãe dessa vez. Com certeza foi porque ela achou que a “Dona” Bárbara estava certa, pelo menos no começo. E cá entre nós, lá no fundo, todos nós achamos a Jéssica uma abusada no começo não é?

Existem frases que me marcam profundamente nesse filme e uma delas é a Val dizendo que há coisas que ninguém ensina, já se nasce sabendo. E quer máxima mais real do que “lugar de pobre é da porta da cozinha para lá”? Troque a palavra pobre por qual você quiser, seja faxineira, negro, mulher... Toda essa gente que a gente aprende desde cedo, ser minoria. Quando Jéssica come o sorvete, entra na piscina, come na mesa do patrão, não há um de nós que não pense que ela não conhece o próprio lugar. Ouvi isso repetidamente da boca da minha mãe e não julgo, afinal, pensei a mesma coisa. Dona Bárbara ensina: Que ela fique da porta da cozinha pra lá. Minha mãe concorda e você também. Mas a Jéssica não concorda e lhe prova o contrário. Faz você sentir vergonha das próprias verdades com cada minuto de filme. Jéssica ensina: Não sou melhor do que ninguém, só não acho que sou pior. Uma tapa na cara que todos nós precisamos.

Sou pobre como Jéssica, minha mãe sacrificou muito da convivência comigo para trabalhar e colocar comida na mesa, assim como Val. Moro na favela, não tenho piscina em casa, não estudei nos melhores colégios. Isso me faz pior que você que mora em Casa Forte ou Boa Viagem? Sou menos digna de uma vaga na faculdade? Preciso enterrar meu sonho de ser escritora? Não preciso não. Jéssica me lembrou e mostrou pro mundo que eu não sou pior que ninguém. Minha mãe não pode me pagar um intercâmbio para Austrália, mas se eu cheguei aonde cheguei foi por suor dela, não houve herança de papai rico que nos ajudasse. Daí nasce todo meu espanto pela reação inicial de minha mãe ao filme. Quem viu as três garotas magricelas do interior de Arcoverde, não diria que estariam onde estão hoje. Minha mãe e minhas tias venceram uma lei da sociedade. Não posso abaixar a cabeça e me conformar em ser menos que elas, o exemplo que me deram me obriga a ser mais. E não há rótulo social que me convença do contrário.

Pobre, rico, negro, branco, faxineira, socialite... E por que não ser humano? Gente, pessoa, indivíduo. O que esse filme maravilhoso me diz é que eu não nasci para ficar na senzala. Ninguém nasceu. Então se acostume, porque vai ter Jéssica na FAU sim, vai ter Val na piscina sim! Nascemos, sangramos e morremos; tudo é igual para todo mundo. E se você assistiu essa maravilha do cinema brasileiro e não se sentiu estapeado, se acha que Bárbara é “Dona”, senta no sofá e assiste tudo de novo porque você assistiu errado. Ninguém aqui é rato e a piscina é de todos nós.

Para quem se sentiu curioso: Mamãe foi dormir pensando em muita coisa. Aguardemos cenas dos próximos capítulos
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                                       Mariana da Costa, estudante de jornalismo.


(imagem de adorocinema.com)

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