Sem a imaginação moral os homens se arrastariam pela existência, vivendo momento a momento, sem qualquer coesão, como o fazem os cães e os gatos. É a faculdade humana de discernir a grandeza, a justiça e a ordem para além dos padrões vigentes, apetites naturais e interesses próprios — inexplicável para as concepções reducionistas do homem defendidas pelos materialistas — que nos permite elevar nossas consciências ao controle dos vários impulsos discordantes que se agitam dentro de nós, de modo a transcender nossas limitações circunstanciais rumo à realização plena da nossa missão pessoal; daquilo que Viktor Frankl chamava de "sentido da vida".
Segundo essa concepção, a importância dos obstáculos que enfrentamos em um dado momento depende da contribuição, positiva ou negativa para a conquista da maturidade, que somos capazes de extrair de cada um deles. Não é preciso salientar, portanto, que a atenção mesquinha aos pequenos infortúnios e decepções é infinitamente mais nociva para a realização humana do que qualquer dificuldade contingente. Quando damos muita atenção aos nossos infortúnios e, sobretudo quando procuramos explicações externas e nos isentamos de nossa responsabilidade pessoal, tornamo-nos rancorosos e contaminamos nosso imaginário moral com a mesquinharia dos problemas práticos do nosso dia-a-dia, o que sempre acaba por estreitar nossos horizontes de consciência e, no limite, pode nos levar a ressignificar toda a realidade com base em nossas necessidades e desejos momentâneos — transformando-nos em pouco mais do que bichinhos, em meras criaturas bestializadas, escravos da nossa "carne".
Vivemos em um mundo caído, marcado pelo mal, pelas imperfeições e pelas enfermidades, pela fragmentação e pela ignorância, pelo pecado e pela morte, e que, no entanto, jamais excluiu do seu círculo de possibilidades a contemplação do transcendente e do eterno ou a consagração ao que é bom, belo e justo. Pelo contrário, neste mundo caído em que vivemos, é a concentração em assuntos mais elevados, é a consagração ao bom, ao belo e ao justo que nos fortalece, que nos abre novas perspectivas e amplia nossa potencial de ação, de modo que nossos problemas cotidianos deixam de ser a totalidade de nossas vidas e se tornam meras distrações; pois, se voltamos a nossa atenção para aquilo que nos infunde vitalidade, fé e esperança, também nossos problemas práticos serão solucionados, com facilidade e sem que consumam nossa energia. Dito de outro modo: "busquem primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e as demais coisas vos serão acrescentadas".
Filipe G. Martins


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