Arte - Sobre a crítica:

Por: Lucília Coutinho
Em artes plásticas, a primeira coisa que aprendemos é conviver com a crítica. Imagine um excelente crítico, super conhecedor, que espinafra seu trabalho que custou muito tempo e grana para ser feito e está exposto numa galeria que vive de vender seu trabalho.

Agora substitua o crítico por um jornalista que pouco entende de arte.

Dá na mesma: a obra não vende.

Conviver com críticas de todas as espécies, de conhecedores ou não, é um dos ônus do artista.

Quem fala da curadoria?
Quase ninguém.
O curador é também um artista, ele escolhe o que aparece na exposição. Pode ser uma escolha boa ou não.

O trabalho de Roberto Alvim à frente da Secretaria de Cultura é finalmente um trabalho de curadoria para o abandonado Brasil que viveu mergulhado na anti-arte por décadas, com muitas gerações nascidas e criadas sem a mínima idéia do que vem a ser a alta cultura, da qual muitos falam e poucos têm uma noção clara.

É esta noção, esta retomada da cultura no sentido que Cícero lhe deu, o cultivo do espírito, que será o grande trabalho deste homem de grande valor.

Mas, redarguem alguns, a intervenção do Estado mata a arte. Há vários episódios que confirmam isso, como a arte soviética, como a datada arquitetura de Niemeyer onde se assenta a capital, como a mostra Entartete Kunst sob o nazismo. Mas também há a arte barroca italiana que surgiu sob o patrocínio da Igreja logo após o Concílio de Trento, cada artista tendo a liberdade de criar como melhor lhe aprouvesse. Há obras encomendadas e rejeitadas, caso do São Mateus de Caravaggio, que teve que fazer outra para a encomenda.

Artistas sempre viveram de encomenda, uma profissão bem liberal, com contratos assinados, está no livro Vidas, de Giorgio Vasari, mas também trabalharam para seus soberanos, caso de Velázquez. Isto não diminui o valor da arte, visto que o Felipe IV é lembrado não por seus méritos como rei, conhecido por Rei Planeta, pois o Rei Sol era Louis XIV, mas por ter escolhido Velázquez para ser o pintor oficial da corte. Sob Louis XIV, tivemos Molière, Racine, Lorain, sem contar a invenção do Rococó, pois ele chamou o designer da corte e pediu que decorassem um aposento onde tudo tivesse um ar de infância, pois receberia uma duquesa muito jovem.

Claro que a arte perdeu muito sob Stalin, Hitler e o PT, mas a vida e a história da arte não se resumem a isso. Arte engajada sempre é ruim. Sempre. Mas há arte engajada feita com dinheiro do artista e de gente rica. Há a arte que ninguém entende se não ler uns três livros antes e mesmo assim fica em dúvida.

O caso do Brasil é sui generis: tivemos uma arte bancada pelo Estado que nos levou ao fundo do poço, distanciando o público da arte, seja pela qualidade, seja pelo desconhecimento, seja pelo preço. Esta área precisa ser reorganizada, e o lucro do empresário patrocinador não é o melhor tipo de curadoria, pois, ele pode muito bem bancar o canastrão global que chama público. Talvez ele jamais banque uma exposição de pintura.

Pegamos um país destruído e estamos ressurgindo das ruínas. Artistas sozinhos, sem nome e sem capital, naturalmente serão avaliados, naturalmente as críticas serão bem vindas para facilitar o acesso de bons artistas evitando burocracias debeladas apenas por quem tem um corpo jurídico à disposição. Lembrem-se, não é um governo de laboratório que finge ser do povo, é um governo aberto às sugestões exequíveis de seu povo.

Não é justo que agora pratiquemos o construtivismo pedagógico na Cultura em que cada um construa algo sem que alguém lhe apresente tijolos e a argamassa que os unirá.

Sem conhecimento, sem acesso ao que é bom de fato, sem honrar pai e mãe, isto é, o passado comum a todos, continuaremos mergulhados no pântano ouvindo funk.

***
Escolhi esta obra rejeitada de Caravaggio porque ilustra um anjo guiando a mão de um santo, é uma boa metáfora sobre a necessidade do Brasil até que ele aprenda a ser independente de verdade. É pura abstração: não existe mais, mas existe como história.

Imagem: Michelangelo Caravaggio, A inspiração de São Mateus, 1602. Antigamente no Kaiser Friedrich Museum, Berlim, destruída num bombardeio.

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