Fosso Intelectual:

Dentre outras coisas, me espanta a ingenuidade e o idealismo juvenil com que a classe universitária brasileira fala de "Ciência". Não estou falando do povão que não teve boa escolaridade. Não estou falando do presidente e da maioria dos políticos, que não demonstram preparo intelectual. Estou falando de gente que passou pelos bancos universitários e chegou até a pós-graduação.

Pelo que tenho lido e visto nas redes sociais nesses tempos de medo e pandemia, para muita gente dessa classe universitária, a Ciência é uma espécie de "ídolo", um bezerro de ouro. Parece que desconhecem por completo as práticas concretas e as condições reais e materiais nas quais as pesquisas científicas são feitas hoje no Brasil e no mundo.

Parece que esquecem que expansão do campo científico gera uma grande disputa por verbas, financiamentos, cargos, posições institucionais, influência. Parece que abstraem inteiramente as relações de pesquisadores e institutos de pesquisa seja com governos e órgãos militares; seja com instituições de mercado e empresas. Imaginam uma Ciência pairando no ar, abstraída de suas relações com a sociedade, com a política e a economia.

Ora, a classe universitária deveria saber que a "ciência" é um campo muito concreto de pessoas e instituições, que podem colaborar eventualmente, mas no qual existem lutas cotidianas muito acirradas, onde os interesses particulares, muitas vezes, se sobrepõem à busca pelo conhecimento, pela verdade e pelo bem comum.

Outras pessoas vão ainda além, e supõem que a Ciência produz um discurso "autoritativo" e cabal sobre realidades do mundo. Recentemente ouvi a frase: "não se refuta a ciência". Bom, nesse caso já não se trata apenas de desconhecer as relações da ciência com as dimensões sociológica, política e econômica, mas de desconhecer a própria natureza do conhecimento científico que, por definição, é um conhecimento permanentemente aberto à refutação. Ciência é refutação.

E os cientistas vêm há décadas refutando-se uns aos outros incessantemente. Raro é um ramo da ciência em que se estabelece um consenso de longa duração e terminantemente inquestionável sobre muita coisa. Consensos desse tipo se estabeleceram, no curso de anos de confirmação, e no mais das vezes para frações pequenas e limitadas de fenômenos.

Muita gente confunde também ciência com eficiência técnica e tecnológica. Embora haja sobreposições evidentes entre ciência e técnica (ou tecnologia), elas não são a mesma coisa, e muitas vezes as práticas que levam ao avanço tecnológico são o exato oposto das práticas da ciência, pois as primeiras podem se configurar com um tipo de bricolagem sintética, ao passo que as segundas são necessariamente analíticas.

Toda essas incompreensões mostram, tristemente, o fracasso do ensino superior no Brasil. Vivemos uma grave crise. Essa crise, como estudiosos importantes da vida brasileira vêm mostrando, ela é, antes de tudo, uma crise intelectual. E dela decorrem as crises políticas, sanitárias, econômicas e as demais. P.S. Disclaimer anti-zumbis. Não estou dizendo que isso invalida nossos esforços científicos, ou que a ciência não tem importância, e que nada que venha da ciência deva ser considerado! Não se trata disso, obviamente! Também eu não estou condenando o fato de a ciência trabalhar para empresas ou para o governo. Isso é da natureza da prática científica no nosso mundo. Isso tem aspectos positivos e tem aspectos negativos. A boa formação intelectual consiste precisamente em conseguir separar o joio do trigo.


Cesar Gordon (via Eduardo Vieira)

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